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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Dentro do labirinto

Desde que li a obra de Lobato, não me desvinculei da mitologia grega. É um lugar de onde nunca saí.

Uma das nossas maiores autoras infanto-juvenis, Lygia Bojunga Nunes, em Livro, define este objeto: “Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena, os livros me deram casa e comida.” Para mim também. Tanto que um dia aconteceu de fato.

Eu lia as obras de Monteiro Lobato na biblioteca da escola. Aos 9 anos apaixonei-me perdidamente: não imaginava mais a vida sem o Sítio do Picapau Amarelo. Mas, como morava numa cidade do interior de Pernambuco, nem sempre era fácil obter todos os livros e, como faltavam poucos para ler a coleção inteira, não consegui esperar que a bibliotecária comprasse o livro que eu queria. Pedi emprestado à vizinha um dos que estava ansiosa para ler: O Minotauro. Lembro-me bem do livro: encadernado, capa dura marrom, quase novo. Não me contive e parei ali mesmo,na calçada da casa dela, para abri-lo. Queria viver logo aquela aventura!

Tudo começava com a turma do Sítio dando-se conta de que Tia Nastácia fora “esquecida” na história do casamento do príncipe Codadad com a Branca de Neve, em que o monstros das fábula invadiram a história. O jeito foi realizar uma expedição para resgatar a cozinheira. E lá se foram eles para a Grécia. 

Nem fui para casa. Sentei-me na calçada e embarquei. Lembro-me de minha mãe me chamar algumas vezes: “Venha lanchar! Venha tomar banho! Vai escurecer!...” Aquele livro me deu, de verdade, casa e comida...
Escureceu. E só por isso voltei para casa. Num tempo recorde tomei banho, jantei e me enfiei na cama com deuses e heróis... Adormeci com o ponto final da história, que trouxe todo mundo de volta ao Sítio.

Mas, de alguma maneira, parece que ainda estou lá: nunca consegui me desvincular da Mitologia Grega. Descobri aquele universo marcou a minha vida. Por ela entrei em contato com as grandes verdades universais, o que me ajudou a entender um pouco mais quem sou eu, ou quem somos nós. O Labirinto do Minotauro, para mim, é um lugar de onde eu nunca consegui sair...

Fonte: Revista Carta Fundamental, n. 48, maio 2013, Texto de Januária Cristina Alvesibi.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Mergulhados na sopa de letrinhas

Livros, filmes e o teatro podem despertar a paixão pela literatura.


Para leitores de fôlego, uma música, um filme ou uma peça de teatro podem ser a faísca para detonar o interesse por uma nova obra, levando-os a mais livros.

Foi em um programa de música na televisão que Marcelo Altenfelder Silva, 16, ouviu pela primeira vez alguém declamar Maiakóvski (1894-1930). Como não achou o livro na estante de casa, pegou um exemplar com uma amiga.

A leitura de obras que não são cânones da literatura mundial pode levar esses devoradores de livros a novas buscas pelo universo da literatura.

Por exemplo, Matias Gurbanov, 16, depois de ler O Senhor dos Anéis, de Tolkien (1892-1973), passou a vasculhar sebos no centro de São Paulo à procura de livros de poesia e mitologia nórdica. "O legal é que um livro sempre leva a gente a procurar outro."

Já Alexandre Watanabe, 15, aprendeu a estabelecer relações entre obras. Nas aulas de filosofia, estudava Platão. Ao mesmo tempo, lia O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (1854-1900). "No meio da leitura, pensei: nossa, isso tem tudo a ver com Platão. Daí voltei a estudar esse filósofo grego e fiz uma relação entre as duas leituras."

Frequentador de livrarias, Victor Arruda Pereira de Oliveira, 16, compra livros com os pais ou com os amigos. Foi assim que descobriu A Ilha, de Fernando Morais. Em seguida, rumou para Se me Deixam Falar, de Domitila Chungara, e chegou a Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed (1887-1920).

A cada dois meses, Julio Mitre, 15, acompanha seus pais a uma livraria. "Gosto de Agatha Christie (1890-1976), e meu livro predileto é Morte no Nilo."

A consequência dessa entrega à literatura é uma evidente modificação no modo de pensar e de agir. Ana Frate Bolliger, 15, acaba de ler Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Ela é enfática: "Quando a gente se identifica com um livro, a nossa essência se transforma. Comparamos nossa vida com a dos personagens e aprendemos como enfrentar o cotidiano".

Murilo do Amaral Pontes de Camargo, 15, descobriu seu lado crítico em Não Verás País Nenhum, de Inácio de Loyola Brandão. "Ele faz uma análise contundente da sociedade."

Com os estímulos à leitura aflorados, chega uma hora em que o livro roubado da estante dos pais tem um gostinho todo especial. Pode figurar na lista dos títulos proibidos em casa, por falta de maturidade. Mas pode ser o mais instigante.

Aliás, é na biblioteca de casa que a maioria dos jovens que realmente são apaixonados por literatura vai descobrir obras que o levarão a saber se expressar.

No último assalto de Natalia Quadros, 14, pegou quatro obras de Nelson Rodrigues (1918-1941). "Gosto muito de livros fortes, mas minha mãe fica muito brava quando faço um ataque inesperado à sua biblioteca." Na estante do pai, com cerca de 2.000 títulos, Pedro Costa, 16, encontrou Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e A Sangue Frio, de Truman Capote (1924-1984), entre outros. "Meu pai lê muito e é comum conversarmos sobre literatura, como aconteceu nas férias."

Isadora Menezes, 13, não precisou atacar subitamente a biblioteca de casa. Não pensou duas vezes ao aceitar o exemplar de Macbeth, de William Shakespeare (1564-1616), que o irmão lhe ofereceu. "Comecei a ler na escola, mas muitos dos livros não tinham a ver comigo. Adorei a sugestão dele, porque é um livro mais difícil."

Fonte: Folha de São Paulo/Folhateen, de 17 nov. de 2003, Texto de Marijô Zilveti e Antonio Arruda.

terça-feira, 19 de março de 2013

Só depois da taba

Foi a coleção de livros-disquinho, vendida na banca do Seu Zé Campos, que me apresentou craques da literatura.


Minha paixão pela leitura surgiu com os gibis. Era a década de 1970. Morava no interior do nordeste, e não era fácil o acesso aos livros de literatura.
Um dia, fui com meu pai até a única banca de revistas da cidade. Ele me apresentou ao dono (Seu Zé Campos) e declarou que a partir daquele dia eu poderia pegar qualquer revista, fiado. Todo mês ele passava na banca e quitava a conta do mês anterior. Meu filho há de gostar de ler – pensava ele.
Ali, conheci a turma do Bolinha e da Mônica. Os gibis de heróis. A cada mês descobria um novo gibi e a conta na banca ficava mais gorda.
No começo dos anos 1980 vi, na banca, algo diferente que me chamou a atenção. Não era um gibi. As ilustrações tomavam conta da página inteira, como se fosse um quadrinho só a contar tanta história. Ah, e vinha com um disquinho junto. Curioso, fiz dele a minha escolha daquele dia e corri pra casa.
O livro Marinho, o marinheiro, de Joel Rufino dos Santos*,  contava a história de um marinheiro que usava um passarinho na cabeça. O capitão do navio o deixava de castigo por não usar boné como todo marinheiro. No disquinho, ouvi a história dramatizada e com músicas. À noite, reli a história na solidão do quarto. Queria mais.
Esperava ansioso a chegada de cada novo livro-disquinho. Comprei toda a coleção. Chamava-se TABA. As histórias, eram de craques da literatura como Ana Maria Machado, Joel Rufino dos Santos, Maria Clara Machado, Ruth Rocha e Sylvia Orthof.
Só depois da TABA que li – e me encantei - com alguns livros da Série Vaga-Lume. Indicados pela escola. Só depois da TABA que me emocionei com Vidas Secas.  Que reli quatro vezes.
Foi aquela coleção – vendida na banca de Seu Zé Campos - que me apresentou à literatura. Meu coração-leitor batia forte esperando por elas. Batia forte enquanto as lia. Batia forte ainda hoje quando me lembro, menino, viajando nas histórias. Pena que haja menos Literatura Infantil de qualidade nas bancas de revistas.

 * Marinho, Marinheiro. Joel Rufino dos Santos. Ilustrações de Michele Iacocca. Editora Abril. 1982.

Fonte: Revista Carta Fundamental n. 45, fev. 2013, Texto de Tino Freitas.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Se eu fosse você

Ler ficção derruba a barreira entre indivíduos fechados em si mesmos e mostra igualdade sob a diversidade. Assim, obriga a aceitar o outro.

A gente está sempre aprendendo com os outros. Eu achava que tinha lido com bastante atenção o livro Retratos da Leitura no Brasil 3, organizado por Zoara Failla para o Instituto Pró-Livro, com o resultado da pesquisa que eles organizam pela terceira vez. Mas são tantas informações, que algumas acabam passando despercebidas. Foi preciso ler um artigo no Jornal da ABI para me dar conta de um dado estarrecedor que a pesquisa revela: só 2% dos professores leem no seu tempo de lazer. E, mesmo assim, nem sempre literatura.
 
Então, hoje me dirijo aos outros 98% que não desconfiam do que estão perdendo – a gostosura que pode ser um livro de literatura. Algo que, embora tenha 1.001 utilidades, vai muito além do simples ato utilitário e se define pela outra delícia.
 
Para começo de conversa, vamos acertar algumas coisas. Não é preciso se sentir cobrado. Ninguém precisa se sentir cobrado. Ninguém tem culpa de não ter desenvolvido intimidade com os livros ou descoberto a leitura. O Brasil, como um todo, só está despertando para isso agora. Então, não se sinta culpado por não ter experimentado ainda, seja por insegurança, seja por falta de oportunidade ou de exemplo. Sempre é hora de começar. Mas não fique achando que não gosta de ler. Pessoalmente, acho que isso não existe. O que existe é quem ainda não descobriu que pode gostar.
 
Costumo dizer que ler é como namorar: quem acha que não gosta é porque ainda não descobriu o parceiro que dá prazer. Desista daquele que não satisfaz e saia em busca de outro, até encontrar. Então, procure até achar o tipo de livro de que gosta, o autor com quem tem mais afinidade, a história que lhe atrai, o poema que o toca de modo especial. Entre numa livraria, folheie alguns, leia as orelhas e quartas capas, permita-se sentir o chamado de algum livro. E não caia no autoengano de dizer que não lê porque livro é caro. Já experimentou ir a uma biblioteca explorar um pouco? Hoje a maioria dos municípios brasileiros tem bibliotecas, muitas escolas também. Lá, livro é de graça. Você leva para casa e lê à vontade.
 
E ler literatura é incomparável. Uma oportunidade de vivenciar algo único: a alteridade. Quer dizer, ser outro, continuando a ser o mesmo.

Deixemos a poesia para outra conversa. Hoje vou falar um pouco sobre a leitura de prosa. Dependendo do fôlego de cada um, ou da vontade naquele dia, pode ser um encontro com diferentes gêneros: romance, conto, crônica. E em cada em deles, podemos ter ofertas infinitas, num cardápio inesgotável. Romances de amor, de aventuras policiais, psicológicos, de costumes, experimentais. Crônicas, realistas, cômicas, líricas. Não importa. Todos nos permitem ser alguém diferente enquanto estamos lendo. Os muito bons nos transformam por dentro, ficam conosco depois e trazem essa experiência para nosso íntimo para sempre. Mas todos nos propiciam essa chance de entrar na pele de um personagem, conhecer suas circunstâncias tão diversas das nossas, tentar entender o meio em que se move, as emoções que sente, as ideias que lhe povoam a mente. Em suma, viver outra vida. Essa é uma experiência libertadora que, embora também oferecida por filmes e novelas, nunca é tão plena como num livro, em que os detalhes concretos variam com a imaginação de cada leitor, o todo-poderoso cúmplice do autor na criação.
 
Recentemente fez muito sucesso um filme brasileiro chamado Se eu fosse você, que teve até uma continuação com o mesmo nome. Muito divertido, explora a ideia de outro, baseado num livro chamado Que Sexta-Feira mais Pirada! (editado pela Ática em 2003). Em ambos, os personagens trocam de papéis, fica a identidade de um no corpo do outro. No primeiro caso, o marido no corpo da mulher e vice-versa. No segundo, a troca se dá entre mãe e filha. No final, cada um adquiriu uma compreensão incrível e riquíssima sobre a vida do outro.

A leitura de uma obra de ficção faz exatamente isso, ainda que não de forma literal como nesses filmes. Derruba as barreiras que se erguem entre indivíduos fechados em si mesmos, faz compreender as diferenças que existem debaixo das semelhanças entre as pessoas e mostra a igualdade sob a diversidade. Mais que isso: desestabiliza a ilusão de centralidade de cada um, já que no fundo todo indivíduo tende a se ver meio como o centro do mundo. A ficção obriga a aceitar o outro. Corrói o autoengano de que a identidade do leitor é a única possível. Afasta a tentação do autocentramento das referências pessoais. É uma experiência imaginária que reorganiza o mundo e a consciência do leitor.
 
Nunca entendi férias sem a companhia de alguns livros bem escolhidos. Para ler no avião, no ônibus, na praia, no banco do parque, na rede, na cama, no aeroporto. Onde a vida me levar nessa hora. De qualquer modo, não estarei apenas ali. Mas também aonde o livro me levar, viajando pela linguagem, mergulhando em mim mesma, descobrindo os outros. As possibilidades são infinitas. Não perco por nada.
 
Se eu fosse você, experimentava.

Fonte: Revista Carta Fundamental, n. 44, dez/2012-jan/2013, p. 12-13, Texto de Ana Maria Machado.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

De pai para filho


Meu pai me ensinou a gostar de livros. Não era um intelectual, um professor: era um simples faroleiro. Funcionário público civil da Marinha, cuidava de manter em funcionamento adequado os faróis, que orientavam os navegantes. Na verdade, havia algo similar à função docente em tal orientação. O faroleiro olha o mar, dia e noite, sem cessar, como vela uma bengala os passos de quem não vê. Mas nada espera, solitário, solidário com tantas naves e vias. Não tem planos de marinheiro; é apenas o faroleiro. Hoje, com a automatização, tal profissão está praticamente extinta. 
Como dispunha de tempo entre os períodos de plantão, sobretudo ao longo do dia, meu pai costumava preenchê-lo com a leitura. A literatura espírita era de seu especial interesse, sobretudo os textos básicos, como A Gênese, de Allan Kardec. Lia sem pressa, degustando cada linha, cada página. Sua afeição pelos livros era contagiante; seu respeito por eles me marcou profundamente. Entre os sete e os dez anos, muitas vezes peguei tais livros e tentei entender o que ele sentia ao lê-los. Achei A Gênese realmente fascinante. É claro que não entendia muita coisa, mas o interesse que tal narrativa despertava era enorme. Contava-se a história da criação do mundo, mas não apenas de modo mágico, como no catecismo católico: parecia mais um livro de ciências. Muito mais tarde, li efetivamente tal livro e minha admiração por ele – e pelo meu pai somente cresceu. A despeito de a ciência nele apresentada ser do século XIX, e estar, hoje, em grande parte, superada, a integridade com que as questões eram abordadas é exemplar em qualquer cenário científico. Afinal, como dizia Bacon, “a verdade nasce do erro mais facilmente do que da confusão”. 
Não foi A Gênese, no entanto, que me atraiu definitivamente para o mundo dos livros e da leitura, mas sim a atitude de meu pai para como os livros, e particularmente o presente que me deu quando ingressei no antigo curso ginasial, em 1960. Comprou à prestação o Novo Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, editado em Portugal por Lello & Irmão, e passou, orgulhosamente, às minhas mãos. Trata-se de uma obra em três volumes, notável pelo seu caráter efetivamente enciclopédico. A primeira edição é de 1927 – a que mantenho comigo até hoje é de 1960. 
Os dois volumes de A a Z têm mais de 100.000 verbetes, mais de 6000 gravuras, centenas de quadros e mapas, coloridos e em preto e branco, dezenas de reproduções e desenhos à pena. O texto é convidativo e já se preocupa, nessa época, com a integração entre os países de língua portuguesa, fazendo referência a um Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro, então vigente. Apresenta ainda, no final do segundo volume, uma coletânea de frases latinas e em outras línguas, com significado e ilustração de uso. 
O terceiro volume era meu predileto: compunha-se apenas de História e Geografia, apresentadas em ordem alfabética de nomes, lugares, fatos importantes. Ao longo de minha vida escolar, mesmo dispondo de bancos de dados mais generosos, nunca deixei de consultar meu primeiro oráculo, a obra dos Lellos. Quando vim de Recife para São Paulo, em 1964, para fazer o chamado Curso Científico, trouxe em minha mala os três volumes, que simbolizavam o conhecimento que meu pai tanto valorizava, mesmo que as oportunidades de estudo formal não lhes tenham sido oferecidas.
Um efeito colateral importante do presente de meu pai foi meu especial interesse por dicionários de todos os tipos. Além dos dicionários em sentido estrito, os técnicos ou de disciplinas específicas, como de filosofia, antropologia, sociologia, linguística  matemática etc. Também os analógicos, os de sinônimos e antônimos, os de rimas, de regência, de línguas estrangeiras, de tupi-guarani, e particularmente os que possibilitam triangulações curiosas, como inglês-francês, espanhol-alemão, italiano-japonês etc. 
Leciono na universidade desde 1972 e já escrevi diversos livros, frutos de meu trabalho acadêmico. Hoje, percebo, na temática da maior parte deles, uma preocupação permanente – nem sempre bem sucedida - com os fundamentos do que se discute, com a construção de uma narrativa abrangente e reveladora da gênese das ideias apresentadas. A partir de 1995, passei a escrever também livros para crianças a partir de 5 anos. O primeiro deles foi justamente um dicionário de bichos, que chamei de Bichionário. Nele os animais são apresentados em ordem alfabética, um para cada letra, por meio de um pequeno poema referente a uma característica marcante dos mesmos. Ao final da leitura, o efeito colateral mais interessante, a meu ver, é o fato de as crianças introjetarem a ordem alfabética e passarem a recorrer naturalmente a ela na organização do mundo circundante. E novos livros são criados por elas: Brinquedionário, Plantionário, Timeonário, Frutionário etc.
Certamente, meu interesse pela epistemologia e por dicionários não podem ser associados explicitamente às leituras de meu pai, ou ao presente que me ofereceu aos 11 anos. Mas não tenho dúvidas da influência tácita de tais fatos sobre minha formação. Hoje, 50 anos depois, rendo-lhe as devidas homenagens.

Fonte: Revista Carta Fundamental, n. 18, Texto de Nílson José Machado, Ilustração de Kelly Kennedy

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A piscina de livros

Na onda de obras que inundou minha casa, descobri com o Mágico de Oz que crescer é uma aventura e tanto

Eu tinha 10 anos quando li O Mágico de Oz dentro da piscina. Tudo bem que era uma piscina de livros, mas ainda assim...
A história foi a seguinte: minha mãe, que era professora da UFMG, fez uma campanha de arrecadação de livros e gibis usados para distribuí-los em creches e asilos de belo Horizonte. Um belo dia, acordei e topei com um caminhão despejando toneladas de livros na entrada de casa. O hall virou uma piscina de livros e ali eu mergulhei, nadei e me diverti durante dias.
Comecei a ler O Mágico de Oz ali mesmo e não saí da piscina até terminar. Não era a versão integral, de L. Frank Baum, que só fui conhecer anos depois, mas uma adaptação em formato de bolso que guardo até hoje. Quem é da minha geração deve se lembrar com carinho das “Edições de Ouro”, que soltavam páginas com facilidade, mas mesclavam ótimas histórias brasileiras e adaptações muito bem feitas.
Na minha cabeça, Dorothy desenhou-se muito mais jovem do que fui encontrar no filme com Judy Garland. Como parecia frágil aquela menina morando em uma casa tão pequena: “Eram só quatro paredes, o assoalho e o teto, isto é, um único aposento, contendo um fogão velho, um guarda-louça, a mesa, três ou quatro cadeiras e as camas. Tio Henry e Tia Em dormiam na cama grande, a um canto, e Dorothy, numa pequenina, no lado oposto do aposento”. No rodapé, vinham explicações para palavras difíceis: “longínquo recanto = lugar afastado”, “terríveis ciclones = ventos fortes”.
E quando veio o vento forte eu me senti tão desamparado quanto Dorothy. Felizmente, o ciclone deposita a casa no chão com delicadeza – “para um ciclone, é claro” – num cenário deslumbrante. E ali ela vai descobrir que crescer é uma aventura e tanto, uma viagem que mistura emoções e desafios, dúvidas e perigos. A menina arrebanha o Espantalho sem cérebro, o Homem de Lata, o Leão covarde e enfrenta a bruxa, além do sinistro “Mágico de Oz – que de sinistro não tem nada; por trás de toda a panca, é um sujeito tão inseguro e gentil quanto os amigos da menina.
Quem diria que, tantos anos depois, eu encontraria O Mágico de Oz na piscina outra vez? Agora a piscina cabe na palma da mão e se chama iPhone, iPade. Mas continua cheinha de livros, à espera de mergulhos.

Fonte: Revista Carta Fundamental, Texto de Leo Cunha

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Quero ser Marciano!

A descoberta que nasceu de um inesperado encontro com Fernando Sabino

"Quando crescer, quero ser piloto de avião." Sempre que alguém perguntava, eu respondia assim. Tinha 11 anos e minha maior vontade era conhecer o mundo. Queria visitar todos os países e imaginava que só conseguiria se fosse piloto de avião. Naquela época, conhecia só as praias de Santos e a fazenda dos meus tios, em Olímpia, a 450 quilômetros de São Paulo. Eram os dois locais onde passávamos as férias.

Na escola, devorei o volume 2 da Coleção Para Gostar de Ler, com crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade. Eu me diverti com a história do barbeiro que achava que o cliente era turco e só falava sobre a Turquia com ele. Contei em casa essa história com tanto entusiasmo que meu pai apareceu com O Encontro Marcado. Demorei para começar a ler o livro.

A grossura dele me assustou inicialmente. Devia ter três vezes mais páginas que o livrinho de crônicas. Além do mais, a concorrência era brava. A fazenda tinha piscina, cavalos, campo de futebol. Até o dia em que apanhei o exemplar e o levei para a rede na varanda. Fui apresentado para Eduardo Marciano, personagem central do livro.

Quando a história começa, Eduardo está com a mesma idade que eu. Por isso, começamos a nos identificar no primeiro capítulo. Página a página, o sonho de pilotar aviões começou a ir para o espaço. Decidi que queria ser escritor como Eduardo Marciano. Eu queria escrever como Fernando Sabino.

Voltei para São Paulo com desejo de me tornar escritor. Comprei cadernos de brochura para escrever minhas próprias histórias e perdi a conta de quantos livros passei a ler por mês. O tempo passou e fiz a faculdade de Jornalismo. Mas um encontro estava marcado na mesma Olímpia dez anos depois de minha formatura. Visitando os meus tios, encontrei numa estante da sala uma coleção de almanaques antigos. Fiquei folheando aquilo o fim de semana inteiro e nasceu aí a ideia do meu primeiro livro, O Guia dos Curiosos. O jornalismo e a literatura formaram uma harmoniosa relação em minha vida. Tanto que, hoje, quando me perguntam o que eu seria se não fosse jornalista e escritor, respondo: “Uma pessoa muito infeliz…”

Fonte: Revista Carta Fundamental, Texto de Marcelo Duarte

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Senhoras do destino

Em A Chave do Tamanho, Lobato criou uma fábula moderna em que as crianças são as donas da história


Não me lembro qual foi o primeiro livro que li sozinho, do começo ao fim. O caso é que, para a Literatura entrar em mim, se tornando parte da minha vida, foi necessário encontrar um lugar especial, desses em que a gente “quer morar”, e personagens que você, no que descobre, sente que conhece, que conheceu a vida inteira, e ficou esperando encontrá-los de verdade um dia. Sem isso, acho que a Literatura não se torna um barato na vida da gente. Isso aconteceu quando comecei a ler Monteiro Lobato e as aventuras da turma do Sítio do Picapau Amarelo.
Também não sei mais qual foi meu primeiro Lobato. Mas nunca esquecerei o meu lobato crucial, aquele que me abduziu para a literatura. E para o mundo – porque transformou minha vida. Foi A Chave do Tamanho.
A história se passa em plena Segunda Guerra Mundial. Emília fica horrorizada com as notícias dos bombardeios sobre Londres, com mortes de civis e crianças, e decreta que existe em algum lugar a Casa das Chaves, nas quais estão guardadas as chaves que regulam tudo no mundo. Bastaria chegar lá e desligar a chave da guerra.
Num Pirlimpimpim, ela chega ao tal lugar, mas escolhe a Chave do Tamanho, que deixa os adultos menores do que minhocas. Como o poder dos adultos baseava-se no tamanho, as crianças, que nunca se valeram desse poder, passam a mandar no mundo.
Esse Lobato generoso, tão mal compreendido (e mal lido), desde que lançou seus livros e ainda atualmente, escreveu ali uma fábula moderna em que as crianças se tornam protagonistas, as donas da história e de seus destinos. Quando o li, encontrei minha “tchurma”, Vislumbrei o que queria e sonhava da vida. Foi o livro que me abriu a inteligência. Não sei o que era antes, mas comecei a pensar comigo mesmo e a me pensar no mundo. Foi e será sempre o livro mais importante que já li.

Fonte: Revista Carta Fundamental n. 36, março de 2012, Texto de Luiz Antonio Aguiar